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Ela chegou em seu quarto, finalmente, e desabou sobre a cama, desnorteada. Não, isso não podia estar acontecendo. Mágoa, desapontamento, decepção, amor, tristeza, revolta, culpa, coração partido, todos os sentimentos mais controvérsios juntos escapando por seus olhos, já vermelhos de tantas lágrimas, lágrimas estas que teimavam em lhe escorrer por seu rosto já castigados por tal oceano que lhe cegava. Não entendia, não aceitava, e um enorme e horrível sentimento de culpa a possuía “o que foi que eu fiz de errado?” ela pensava, inutilmente, sem encontrar resposta alguma. Olhou para a pequena escrivaninha no outro canto do quarto e um brilho metálico a seduziu. Aquela tesoura já tirara muito sangue de seu corpo, mas estes momentos pareciam pertencer a outra era, uma época sem ele. Ele chegara em sua vida sem avisar e nem pedir licença e de repente mudou tudo. Foram tantos momentos, sorrisos, promessas…Uma delas era nunca mais praticar ato tão cruel com seu próprio corpo, mas ela não aguentava mais, aproximou-se da pequena escrivaninha e ouviu um sussurro em sua mente, estremeceu ao reconhecer aquela voz como a dele, e ouviu seu sussurro em seu ouvido “Não faça isso, você me prometeu”. Paralisou-se por um momento, mas logo a revolta a dominou “Você também me prometeu muitas coisas, mas também não as cumpriu, não foi?” disse consigo mesma indo em direção a tesoura “me prometeu que estaria comigo sempre, que nunca me deixaria, cadê você agora?”. Foi em direção a tesoura quando viu um pequeno pedaço de papel dobrado embaixo dela, distraiu-se por um momento e começou a ler:
“Ei, espere. Me faz um favor? Larga essa tesoura que eu sei que está na sua mão, ligue o rádio e me escute. Sim, sou eu, e eu sei que você está com raiva de mim, mas continue lendo, por favor. Sim, essa é a nossa música, é o CD que gravei para você, lembra? Ah, pequena, enquanto escrevo este bilhete vejo as lágrimas que devem estar caindo em seus olhos, e não aguento ter consciência desse teu rosto,tão lindo,repleto de lágrimas, sem poder as secar e, pior ainda, sendo o motivo delas, mas espero que entenda meus motivos e saiba que eu nunca teria feito isso se tivesse qualquer outra opção. Primeiro, largue esta tesoura, você me prometeu, lembra? E eu sei que eu também fiz promessas, e não as cumpri, mas eu vou cumprir, você vai ver. Eu sei que terminei com você sem motivo aparente, justo agora que estava tudo tão bom não é mesmo? Justo agora, em que tínhamos conseguido enfrentar todas as inúmeras barreiras que a vida nos impôs e o nosso contos de fadas estava apenas começando. Mal sabes que a maior das barreiras é uma que nunca conseguiríamos enfrentar, pequena. E eu não queria, não quero, não suporto fazer isso, mas não vejo outra saída, não há outra saída, acredite, já passei milhares de noites em claro tentando encontrar alguma. Sei que parti seu coração, e talvez você me odeie pra sempre, mas mesmo assim quero, preciso, te explicar. Não comentei nada antes por medo de te fazer sofrer, e sei que acabei provocando sua dor da mesma forma, tentei prorrogá-la para ser a menor possível, mas não posso ir sem te contar a verdade, crua, inteira e sem cortes, está preparada? Isso pode doer um pouco. Lembra-se que de uns tempos pra cá venho me sentindo mal, com falta de ar e muitas vezes sem ânimo de sair? Bem, isso não é por acaso. Estou doente, e não é apenas um simples resfriado, estou muito doente de verdade. Há alguns anos, mais precisamente um mês antes de te conhecer, descobri que possuo uma doença chamada Enfisema Pulmonar. Lembra-se de que meu pai fumava? A fumaça do cigarro causou essa doença, matou meu pai, e vai me matar também. Esta doença não tem cura, vai te matando aos poucos, mas é possível viver bastante tempo, mesmo contendo-a, como eu consegui. Consegui por muito tempo, mas agora minha hora chegou, os médicos disseram que meu caso está se agravando, meu pulmão não consegue mais trabalhar sozinho e eu não quero ser um vegetal, vivendo com máquinas, apenas respirando e comendo, sem poder fazer nada, sem poder viver de verdade, com você, coisa que nunca mais poderei fazer. Foi por isso, pequena, que terminei com você sem aparentemente motivo algum. Não quero que você sofra ainda mais quando eu me for. Irei morrer logo, talvez hoje, amanhã, no máximo semana que vem, mas acho que não passo de hoje, estou me sentindo cada segundo pior e minha respiração, que nunca veio com muita facilidade, está cada vez mais difícil. Pequena, me perdoe, te deixar é a coisa mais difícil que faço, mas é algo que não consigo mais enfrentar, só consegui viver até hoje por você, tu deste-me forças para continuar, mas agora nem mesmo esse infinito amor que sinto por ti consegue me manter vivo. Peço-lhe que continue sua vida, ache alguém, sorria, seja feliz, viva. Tudo que eu mais queria é poder viver esta vida com você, mas infelizmente meu tempo acabou e lhe escrever esta carta é a última coisa que farei na vida. Perdão, não consegui reunir coragem o suficiente para lhe dizer isso pessoalmente, mas lembra daquele beijo antes do nosso término? Nosso último beijo, e quero que lembre-se de mim sempre daquele jeito, e assim viverei eternamente, eternamente seu.
Lembra-se das promessas que eu disse que cumpriria? E irei. Prometi que te amaria pra sempre, e nunca nem em um milhão de anos conseguiria te amar menos do que eternamente. Prometi que nunca te deixaria e apesar de não mais poder estar fisicamente perto de ti sempre estarei olhando por você e te protegendo, mesmo longe. Serei teu anjo. Prometi que iríamos namorar por alguns anos e depois nos casar, não foi? Abra sua gaveta e pegue a pequena caixa que guardei aí, queria poder fazer o pedido formal, mas não há tempo pra isso…
“Casa comigo?”
Sei que logo encontrarás outro que lhe faça feliz e lhe ame muito, porque não te amar é impossível, e não quero lhe prender, quero que seja feliz, por nós dois, mas quero te ter como minha mulher, pelo menos por um tempo. Use esta aliança até encontrar o tal homem que lhe falei, por favor? A minha já está em meu dedo e continuará aqui pra sempre. Me lembro do primeiro dia em que te vi, me apaixonei pelo sorriso daquela linda garota, que sorria para mim, tímida, e não quero que teu sorriso, tão lindo, se transforme em lágrimas, não chore por mim, pequena, por favor. Sentirei tua falta mais do que posso explicar em palavras, mas peço que siga em frente, mesmo que doa pensar em te ver com outra pessoa, sei que é o melhor para você, seja feliz, pequena, muito feliz, porque você merece toda a felicidade que nunca conseguirei lhe dar. Meu tempo está se esgotando e logo nada mais poderei falar, nem escrever, me perdoe pelas mentiras, mas gostaria de lhe dizer apenas uma última vez as palavras mais verdadeiras que já lhe disse em toda a minha vida: eu te amo. Amo eterna, imensurável e verdadeiramente, amo mesmo sem mais viver, amo mesmo sem mais te tocar, amo agora da mesma forma que amarei pra sempre, mesmo tão distante de ti.”
Ela dobrou a carta, já gasta pelo tempo, secou as lágrimas que caiam toda vez que a lia e olhou para a aliança em sua mão, envolvida pelas rugas que se formavam em sua pele, estava ali há tanto tempo que parecia fazer parte de seu corpo. Ele havia partido há 50 anos, e ela continuou vivendo apenas porque ele lhe pediu, foi muito feliz, mas ela nunca achara o tal homem de quem ele se referia, e ela tinha certeza que era porque já tinha o encontrado, apenas não teve tempo para viver com ele o que eles mereciam viver juntos. — B. Almeida